Duas palestras a que assisti recentemente me fizeram pensar sobre um mesmo desafio para as marcas.
Embora abordem temas diferentes, o doutor em comunicação Dado Schneider e a especialista em inovação inclusiva e cofundadora da Futuros Possíveis Andreza Maia convergem em um ponto: o futuro da comunicação será definido pela forma como conciliamos tecnologia e humanidade.
Enquanto Dado analisa o impacto das transformações geracionais sobre a forma como as pessoas consomem conteúdo, Andreza reflete sobre como a “informação ultraprocessada” — aquela mastigada e superficial — nos afasta da essência criativa.
Essa convergência traz para o centro do debate uma pergunta que ganha cada vez mais importância: como as marcas vão construir vínculos com consumidores que têm a inteligência artificial como parte natural da experiência cotidiana?
As gerações Alpha e Beta crescem em um contexto em que conversar com assistentes virtuais, recorrer à IA para realizar tarefas e consumir mensagens produzidas e mediadas por algoritmos fazem parte da rotina.
Para elas, a tecnologia não representa novidade. É infraestrutura.
Como provoca Dado Schneider, a geração Beta, que chegou ao mundo em 2025, tende a preferir falar com máquinas a humanos.
Se a forma predominante de consumo dessas novas gerações será cada vez mais sintética, a diferenciação das marcas precisa ser cada vez mais orgânica.
Nesse sentido, Andreza Maia oferece um caminho.
Como contraponto à “informação ultraprocessada”, ela propõe o resgate das “tecnologias ancestrais”, ou seja, das capacidades humanas de contar histórias, exercitar a escuta, criar vínculos, interpretar contextos e atribuir significado às experiências.
Essas competências sempre fizeram parte da boa comunicação.
A diferença é que, em um ambiente saturado por conteúdos produzidos em escala, para consumo rápido, passam a representar um diferencial competitivo.
Embora acelere processos, organize informações e apoie a criação, a IA ainda depende da nossa sensibilidade para produzir mensagens que despertem identificação e confiança.
Talvez seja justamente esse o maior desafio das marcas nos próximos anos.
Em vez de competir apenas pela velocidade de produção ou pela adoção da ferramenta mais recente, será cada vez mais importante investir naquilo que torna uma marca reconhecível: criatividade, repertório cultural e capacidade de interpretar o nosso tempo.
Construir conexões com gerações já habituadas a uma comunicação mediada por sistemas inteligentes exige que as marcas comuniquem algo que não nasce apenas da combinação de padrões, mas de uma visão autêntica sobre o mundo.




