Resiliência: capacidade de se adaptar, recuperar e superar adversidades, traumas ou situações de estresse, voltando ao seu estado de equilíbrio original ou até saindo fortalecido da experiência. Virou a palavra favorita do mundo corporativo e todo mundo é resiliente. Todo CEO acorda às cinco da manhã. Todo executivo já fez uma maratona, um Ironman, uma ultra. E eles adoram te contar isso.
Confesso que nunca entendi muito bem por que essa versão da resiliência virou um ideal tão celebrado. Não me entenda mal, completar um Ironman é uma conquista extraordinária. Tenho enorme respeito por quem chega lá,
até porque eu mesma já cheguei. Completei dois Ironmans, seis maratonas e perdi a conta de quantas outras provas já corri. Mas existe uma narrativa embutida nessas histórias que sempre me incomodou: a de que o esforço só conta quando é épico. Que o esporte só nos transforma quando dói muito, quando acontece em horários impossíveis e termina com uma medalha pendurada no pescoço.
O que me faz questionar essa narrativa não é apenas a minha experiência como corredora, mas também o que aprendi profissionalmente. Na Klick Health, passamos todos os dias tentando entender como as pessoas mudam comportamentos e adotam hábitos mais saudáveis. Vimos isso de perto em nosso trabalho recente para a ONG global MiracleFeet, ‘Miles to miracle’. Trata-se do primeiro filme de animação desenhado inteiramente com pegadas reais e criado para apoiar crianças ao redor do mundo que nascem com pé torto congênito. Utilizando Strava Art, os participantes percorreram quase 600 rotas em Nova York para ajudar a animar o filme. O que os motivou não foi a competição nem a performance. Foi o propósito. E existe algo que aparece repetidamente na ciência da mudança de comportamento: transformações duradouras raramente acontecem por pressão, culpa ou comparação. Elas acontecem quando encontramos uma razão que importa para nós.
Essa ideia faz sentido para mim porque reflete minha própria experiência como alguém que corre há mais de 20 anos. Comecei por razões puramente estéticas e hoje continuo correndo por razões completamente diferentes. Sou o tipo de pessoa que acorda às cinco da manhã mesmo quando está frio ou chovendo, mas não faço isso para provar resiliência para ninguém, muito menos para a minha chefe ou o LinkedIn. Faço porque amo a sensação de correr. E, principalmente, porque amo o que sinto depois.
O Brasil tem hoje cerca de 15 milhões de corredores, sendo que dois milhões começaram recentemente. São mulheres, jovens, pessoas de diferentes classes sociais. Quase metade corre pensando na saúde mental. A maioria não compete, não segue planilhas de treino e não usa tênis de placa de carbono.
Apenas 1% da população mundial já completou uma maratona. Os outros 99% estão nos parques, nas praias, nas calçadas e nas ruas, correndo ou caminhando no próprio ritmo, pelos próprios motivos. E esses motivos importam muito mais do que qualquer tempo de prova ou da resiliência de cada um.
Tem gente que corre porque o médico recomendou ou porque o filho desafiou. Tem quem corra para flertar na pista, e esse também é um motivo perfeitamente válido – eu conheci meu marido correndo, fica a dica. A razão em si não importa tanto. Importa que ela exista. Talvez por isso eu gostaria que a gente falasse um pouco menos sobre resiliência e um pouco mais sobre propósito.
Haverá dias difíceis. Dias chatos e intermináveis. Mas quando você faz algo pelos próprios motivos e não para corresponder às expectativas dos outros, a maioria dos dias vai parecer mais leve.
Hoje, trabalho com comunicação em saúde. E os dados que vejo diariamente são impressionantes: a prática regular de atividade física reduz o risco de câncer, demência, Alzheimer, depressão e diversas outras condições crônicas.
Toda pessoa que começa a se movimentar não está apenas cuidando do próprio corpo. Está mudando sua trajetória de saúde de forma profunda e duradoura. Então, se você já corre, pedala, nada, dança, pratica artes marciais ou qualquer outra atividade física, ótimo. Continue. Do jeito que faz sentido para você. E se ainda não começou, saiba que não precisa de um Ironman.
Não precisa acordar às cinco da manhã. Não precisa de nada épico. Você só precisa de um par de tênis e de um motivo. O resto, o movimento constrói sozinho.




