O bê-á-bá da inteligência artificial foi rápido. Os truques descortinaram um mundo que está além da mimética. A IA exige consistência para ser uma ferramenta dedicada a serviços para projetos em todos os segmentos. No audiovisual, o empresário Nelson Born, fundador e CEO da Osllo, desenvolveu a solução Aistra, que traz para o mundo plano a gestão de ações para marcas como Vogue, Gucci, Betano, Flamengo, Oakberry, Glade, Projeto Rebote 55, Grupo L’Oréal, XP Investimento e RIOGaleão. “O Aistra possui um site que é possível abrir e ver, em tempo real, quanto tempo falta para a próxima gravação, o que tem pendente, o que está atrasado, o que está no prazo. No caso do set do Flamengo, que foi gravado no Maracanã, ele foi usado nisso também. E os envolvidos no projeto ainda puderam incluir custos e pedidos de reembolso.”
Qual ou quais ferramentas proprietárias a empresa utiliza no dia a dia com os seus clientes?
Hoje, toda a operação da produtora funciona por meio de uma única ferramenta proprietária: o Aistra. O sistema é uma plataforma de gestão com IA que acompanha o projeto audiovisual do início ao fim. É utilizado em proposta, orçamento, contrato, nota fiscal, briefing, roteiro, ordem do dia, financeiro, agenda, portfólio e até no marketing da produtora.
E como foi o seu desenvolvimento para finalmente estar disponível às demandas do segmento audiovisual?
Ela não nasceu pronta. Foi uma evolução em três estágios. Começamos por volta de 2024 usando o ChatGPT para ajudar a redigir os textos das propostas. Quando surgiram os GPTs personalizados, demos o segundo passo: partimos do princípio de que toda proposta segue um processo, mapeamos o nosso e ensinamos esse processo à IA. Ela passou a nos entrevistar, perguntando qual era o cliente, qual era o projeto etc. E o mais interessante: a gente enviava o material bruto, do jeito que ele existia de verdade (print da conversa de WhatsApp, áudio do cliente, transcrição da reunião, briefing), e ela processava todo o material bruto, organizava e devolvia a proposta no formato que utilizamos.
Quais os obstáculos para a definição do escopo?
A gente levava muito tempo para integrar o resultado da IA à plataforma do nosso site. Entendemos então que precisávamos revisar todos os processos para que a IA os otimizasse. Foi assim que nasceu a decisão de construir uma plataforma própria.
Quais dificuldades as empresas enfrentam no seu setor para implementar IA?
Aqui entra o que a gente mais acredita: a maioria das empresas usa IA do jeito errado, sem contexto. Elas devolvem respostas generalistas. O potencial só aparece quando você entende o seu processo e organiza o contexto dos seus projetos. Com isso, ela vira um funcionário que sempre respeita as suas regras, com capacidade produtiva praticamente infinita. O problema é que as empresas, em geral, não têm processos bem definidos nem sabem que contexto entregar à IA.
Como a Osllo agrega a sua metodologia de gestão e criação?
Ela poderia se tornar um sistema proprietário e depois um produto. Foi esse problema que a gente quis resolver para as produtoras audiovisuais. Em dez anos no mercado audiovisual, aprendi que o que faz uma produtora crescer não é sorte: é processo. O Aistra é a união de todos os processos de gestão e criação que construí na Osllo.
Como a ferramenta Aistra se tornou funcional de verdade?
O pulo do gato é o contexto centralizado em cascata: se a IA gerou a proposta, significa que ela recebeu todo o contexto do projeto, as conversas de WhatsApp, a gravação da reunião, o briefing do cliente. Esse contexto fica centralizado e alimenta tudo que vem depois. A proposta se torna contrato no formato que normalmente realizamos, se torna briefing, roteiro, nota fiscal, lançamento no financeiro e, quando o projeto é entregue, possivelmente post de divulgação nas redes da produtora.
E como se ajusta a um dos terrores do audiovisual, as diárias?
O número de diárias que entrou na proposta vai sozinho para o briefing. O valor cobrado vai para o contrato e para o financeiro. Nada é digitado duas vezes, e não existe telefone sem fio entre etapas e pessoas diferentes. E esse princípio vale para todas as frentes de gestão, reduzindo o número de processos e otimizando-os ao máximo com a IA.
O Aistra vive de forma independente das IAs tradicionais?
Por trás dele, continuamos usando os melhores modelos do mundo, GPT (OpenAI), Claude (Anthropic) e Gemini (Google), mas via API, com o Aistra orquestrando: o melhor modelo para escrever, o melhor para gerar storyboard, o melhor para calcular orçamento. O usuário nem percebe, no front é só o Aistra. A gente até abre um chatbot de vez em quando para aprofundar uma ideia ou discutir uma questão, mas com uma diferença enorme: esse chatbot agora é alimentado com o contexto completo do projeto, que tenho apenas porque a informação está centralizada dentro do Aistra e ele me permite exportar isso como contexto para outras IAs se eu precisar.
Mas o chatbot não faz tudo sozinho? Ou faz?
Não faz. Por exemplo, há o contexto compartilhado com o time inteiro sempre atualizado, dados fluindo entre módulos e permissões de acesso. Eu envio ao cliente a proposta com os valores cobrados enquanto meu time enxerga só os custos, sem ver o quanto foi cobrado. E isso alimenta o financeiro automaticamente. O Aistra olha para um lado que pouca gente está olhando no audiovisual, que é a IA na gestão, enquanto o grande boom do mercado é a geração de imagem. A gente também está nessa frente: usamos as principais ferramentas de geração como o Higgsfield e abrimos a Rivo, produtora 100% focada em produção audiovisual com inteligência artificial, que faz parte do grupo Osllo. Olhamos como frente em crescimento e já consolidada no mercado, não tem como ficar de fora.
Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 07 de setembro.




