Fernanda Kubiack, sócia-fundadora e diretora de operações e atendimento da Be Nice, agência de comunicação e branding com sede em Porto Alegre/RS

Quando me perguntam quem me inspira, a resposta que vem não é a que as pessoas esperam. Não é uma CEO conhecida, não é uma executiva de capa de revista, não é nenhuma figura do mercado que eu admire de longe. A resposta que vem é uma mulher que nunca deu palestra, nunca publicou um artigo, nunca sentou num painel sobre liderança feminina. É a minha mãe.

Mas para chegar até ela, preciso passar pelo meu pai. Ele morreu aos 50 anos.

Ataque fulminante, sem aviso, sem explicação que fizesse sentido até hoje. Deixou quatro mulheres debaixo do mesmo teto: minha mãe, eu e mais duas irmãs. Mas deixou também algo que ele havia construído durante toda a vida: a certeza de que a gente precisava saber se virar. Sejam fortes. Sejam independentes. Não se vitimizem. Não criem situações confortáveis demais para não precisar crescer. Ele nunca disse isso como discurso de formatura. Foi nas atitudes, dia após dia.

O que poderia ter virado tragédia, e sentimentalmente foi, virou estrutura. Minha mãe não desmoronou. Seguiu carregando os mesmos valores que os dois cultivaram juntos, sem cerimônia, sem manual. Foi ela quem nos ensinou a nos organizar, a falar com clareza, a atravessar a turbulência sem perder o rumo. E foi o que nos tornamos.

As três irmãs que saíram dessa casa são líderes. Cada uma no seu campo, cada uma com seu jeito. O que temos em comum não é a carreira, nem a sorte. É o repertório: você não precisa de permissão para ocupar espaço. Você não precisa de aval para ser o que você já é. Eu penso nisso com frequência quando estou dentro do mercado de publicidade.

Porque o mercado ainda pede permissão a nós. Não de forma explícita, isso seria mais simples de combater. Ele pede de formas sutis e contínuas. Pede quando interrompe uma mulher no meio de uma reunião e ninguém ao redor pisca. Pede quando alguém resume o que ela acabou de dizer, como se a fala original precisasse de uma versão mais palatável. Pede quando um argumento técnico é recebido como sintoma emocional: ela está estressada, deve ser hormônio, ela leva as coisas muito a sério. Pede quando uma decisão tomada por uma mulher precisa circular por mais uma camada de validação antes de virar real. Esse pedido de aval é silencioso e não para.

Quando fundei a Be Nice, uma das primeiras coisas que fiz, antes de ter cliente, antes de ter receita consistente, foi construir a estrutura que transfere seriedade a uma empresa. Contabilidade, jurídico, contratos, processos, inscrição nos sindicatos do mercado, metodologia própria, identidade visual, cultura. Não porque alguém pediu. Porque eu sabia que uma agência que quer ser levada a sério precisa se comportar como uma agência séria desde o primeiro dia. Sem esperar. Sem pedir licença.

Meus dois sócios reconheceram que eu era a profissional mais apta para construir isso. Não precisei disputar o espaço. Mas eu sei que essa não é a realidade da maioria. Sei que há mulheres competentes sendo gerenciadas por homens que sabem menos. Sei que há ideias boas sendo creditadas a quem não as teve. Sei que há lideranças de vitrine, aquelas em que o cargo existe, mas a autonomia não acompanha o título.

O que meus pais me deram foi a ausência desse filtro interno que nos faz hesitar antes de agir. Esse filtro que sussurra: será que posso? Será que vão me deixar? Será que estou pronta? Cresci aprendendo a identificá-lo e desmontá-lo antes que ele travasse qualquer movimento.

Inspiração, pra mim, não é admirar alguém de longe. É carregar um aprendizado que muda a forma como você age quando ninguém está olhando. É o que te faz entrar numa sala sem pedir licença, sentar na cadeira que é sua e falar sem esperar a vez que nunca vai ser oferecida. Minha mãe nunca precisou de aval. E foi exatamente isso que ela passou para frente, sem discurso, sem post no LinkedIn.

Em 61 anos de propmark, o mercado de publicidade mudou em quase tudo. O que ainda precisa se reinventar é a forma como lida com quem chegou, construiu, entregou e ainda assim precisa provar. Uma ideia boa não tem gênero. Uma decisão firme não precisa de segunda assinatura. E liderança feminina não é pauta de data comemorativa.

É estrutura. É o que se constrói quando alguém, em algum momento da sua formação, te olha nos olhos e diz, sem rodeios, sem floreios, sem condições:
Toca ficha.

Essa frase é da minha mãe e está tatuada no pulso da minha irmã.

Imagem do Topo: Divulgação