Stalimir Vieira, diretor da Base de Marketing

Há 50 anos, quando eu ainda engatinhava em propaganda, perambulando entre pequenas agências gaúchas, recebi uma proposta de sociedade. Foi de um camarada, digamos, invisível para os publicitários que se achavam estrelas. Seu nome é ou era (nunca mais soube dele) Pedro Oliveira. O nome da agência era Só Propaganda. Por isso, eu, imediatamente, passei a tratá-lo de Pedrinho Só.

A sede era numa salinha, de um prédio decadente, numa rua de comércio popular, onde pairava um permanente cheiro de pastel frito, acompanhado pela gritaria dos camelôs. Mas eu estava empolgado, pois iria assumir a 'direção' de criação da casa. Isso implicava liderar um velho artefinalista, encostado por ali havia anos, e, vez ou outra, um boxeador aposentado, que sabia desenhar e vinha fazer um frila.

Bem, o fato é que, com o passar dos dias, percebi que não havia clientes para qualquer proposta criativa, a única coisa que me interessara, ao aceitar o convite. Deixei, então, a freguesia a cargo do arte finalista e do boxeador-desenhista, e comecei a pesquisar possibilidades para ganharmos alguma projeção.

E fiquei sabendo de uma entidade, que reunia algumas poucas agências, pequenas, mas com a ambição de conquistar mais associados. O nome era Cedampa (Centro de Apoio a Médias e Pequenas Agências), que queria ser uma espécie de Abap dos menos favorecidos.

Havia uma queixa recorrente de que, nas licitações de contas públicas do governo federal, as escolhas sempre se limitavam ao topo do ranking, concentrado em São Paulo e no Rio de Janeiro. Imediatamente, propus ao Pedrinho Só que nos associássemos à entidade, mas não apenas isso. Que fundássemos, também, o capítulo do Rio Grande do Sul e, ainda, que nos oferecêssemos como agência-voluntária para criar uma campanha para a tal Cedampa.

Ele concordou. Não lembro se nos associamos, não lembro de termos fundado capítulo nenhum, mas lembro que fiz uma campanha que, naturalmente, não veiculou em parte alguma. Aliás, em apenas um veículo: o Caderno de Propaganda & Marketing. Não como anúncios, mas como carta de leitor, ilustrada. Sim, antecipando uma prática que se tornaria corriqueira em Cannes, peguei aqueles fantasmas, fiz umas fotocópias horrorosas, juntei num envelope, escrevi uma carta, e mandei para o jornal.

Era uma campanha ousada, que desafiava as grandes agências, o governo e a própria Abap, pela discriminação com as pequenas e médias. O Armando Ferrentini podia ter jogado tudo aquilo no lixo, inclusive até porque contrariava os interesses comerciais do Caderno, sem falar da precariedade daquelas reproduções.

Mas o seu espírito de jornalista falou mais alto, e ele publicou, como parte de seu editorial, um dos anúncios, como se se tratasse, de fato, de uma campanha, iniciativa de uma pequena agência de Porto Alegre. Emendava o comentário de que reconhecia o valor criativo do trabalho, embora discordasse totalmente do teor da campanha. E, ainda, fez uma gozação no final: xerox não é o forte da Só Propaganda.

Esse foi o embrião da minha relação com o Armando e com o hoje propmark. Cerca de dez anos depois, eu assinava o meu primeiro artigo no jornal, num espaço chamado ‘Entre aspas’. Não menos polêmico, claro.