Adriana Barbosa é fundadora e diretora-executiva do Instituto Feira Preta
Durante muito tempo, o debate sobre a população negra no Brasil foi organizado pela falta: de renda, de acesso, de representação e de oportunidades. Pouco se falou sobre uma dimensão fundamental da cidadania: o direito de consumir produtos, serviços e experiências que reconheçam nossa identidade.
Foi dessa percepção que nasceu a Feira Preta, há mais de duas décadas. A pergunta nunca foi apenas como fortalecer empreendedores negros, mas como formar um mercado capaz de reconhecer e consumir aquilo que nasce da criatividade negra. Empreendedorismo sem mercado consumidor não se sustenta. E consumo sem pertencimento vira apenas transação.
Nas últimas décadas, a identidade negra brasileira passou por uma profunda transformação e por movimentos culturais e sociais. Esse processo ampliou a percepção de que consumidores negros são sujeitos de desejo, escolha e potência.
Hoje, a população negra representa 55,5% do Brasil, ou 112,7 milhões de pessoas, e movimenta cerca de R$ 1,9 trilhão por ano. Estamos falando de uma força de consumo do país.
Mas o dado econômico, sozinho, não explica o fenômeno. Consumir, para a população negra, também pode significar acesso, prazer, sobrevivência e o direito de existir sem pedir licença. É entrar em uma loja sem ser seguido, encontrar uma base no tom correto da pele ou usar o cabelo natural sem constrangimento.
Por isso, precisamos falar do custo do constrangimento. A discriminação aparece na demora do atendimento e na suspeita silenciosa. O dinheiro não neutraliza o racismo: mesmo com renda e poder de compra, ainda há constrangimento.
É nesse contexto que o afroconsumo se torna decisivo. Não é apenas comprar de pessoas negras. É compreender que consumir também expressa identidade, valores e pertencimento. É escolher marcas que respeitem nossa história, apoiar cadeias mais diversas e exigir qualidade e inovação. É disputar o direito ao desejo.
A indústria da beleza é um exemplo dessa transformação. Em 2014, a Salon Line levou à Feira Preta a iniciativa Tô de Cacho, inicialmente como plataforma de conteúdo. Com o avanço da transição capilar, a conversa virou produto e mercado. Em 2024, a Unilever lançou Seda Boom na programação do Festival Feira Preta. Quando o mercado escuta a população negra, ele inova.
Mas escutar não é se apropriar. Consumidores negros confiam em marcas coerentes entre discurso e prática, que representam pessoas negras em contextos diversos e as incluem nos processos de criação e decisão. Desconfiam de campanhas pontuais, estereótipos e apropriações culturais sem contexto ou continuidade.
Não basta colocar pessoas negras na propaganda. É preciso perguntar quem concebe o produto, quem decide a estratégia, quem pesquisa o consumidor, quem está na cadeia de fornecedores, quem lucra e quem é reconhecido. A população negra não quer apenas ser vista. Quer ser considerada. E considerar significa transformar produto, atendimento, distribuição, comunicação, crédito, investimento e governança.
Quem ainda trata o consumo negro como nicho está olhando para um Brasil que já não existe. O futuro do mercado brasileiro passa pela potência criativa, econômica e cultural da população negra. A economia negra já existe. Falta ao mercado compreender que, quando a população negra consome, não movimenta apenas dinheiro: movimenta história, desejo, reparação e futuro.




